América Latina: na mídia, a mãe de todas as batalhas

publicada quarta, 03/06/2009 às 16:56 e atualizado sábado, 06/06/2009 às 17:34 | Comentários 2 Comentários

Dênis de Moraes acaba de lançar um livro que ajuda a iluminar o debate sobre a mídia na América Latina.

Carlos Nelson Coutinho é quem apresenta a obra:  "Além de excelente biógrafo, Dênis é um dos mais lúcidos analistas brasileiros dos fenômenos da comunicação demassa. Com base nos conceitos de Antonio Gramsci, o brilhante pensadormarxista italiano, Dênis nos mostra que devemos analisar a comunicaçãocomo um campo de luta entre diferentes propostas hegemônicas,relacionando-as com os combates que têm origem na totalidade social. Nesteseu novo livro, além de instigantes reflexões sobre os problemas damídia no mundo contemporâneo, Dênis nos fala sobre as batalhashegemônicas que, na arena da comunicação, têm tido lugar em nossaAmérica Latina. Um tema que diz respeito a todos os que se interessam não só pelos problemas da mídia, mas pelas questões centrais de nossotempo."

A batalha da mídia é a mãe de todas as batalhas hoje na América Latina. Por quê? permitam-me uma digressão, antes de voltar ao livro.

Em 2002, Chavez foi apeado do poder. Na vanguarda dos golpistas não estavam militares, mas empresas de comunicação. O golpe midiático levou ao palácio Pedro Carmona, o breve. O governo dele durou apenas dois dias. Os venezuelanos tomaram as ruas, e exigiram a volta de Chavez . O episódio foi retratado de forma belíssima no documentário "A Revolução Não Será Televiosionada" (o Azenha publicou o documentário em várias partes , no site "VioMundo" - http://www.youtube.com/view_play_list?p=DB51597A34FF6E89). 

Passados alguns anos, Chavez não renovou a concessão da RCTV, uma das emissoras golpistas de 2002. O caso foi retratado - por TVs, jornais e revistas brasileiras - como um "atentado à liberdade de informação". Vejam: Chavez não fechou a TV de forma arbitrária. Simplesmente, não renovou a concesão - como a lei permite. Concessões não são eternas.

A emissora - uma concessão pública - havia atentado contra a democracia. Imaginem se uma empresa concessionária de água, por exemplo, lançasse veneno nos reservatórios, para botar a culpa no governo.  O que deveria ser feito? Cancelar a concessão, sem dúvida!

Na Venezuela, a "grande imprensa" assumiu o vácuo deixado pela crise dos tradicionais partidos da elite (AD e COPEI). A mídia tornou-se formuladora e articuladora da oposição a Chavez (sobre isso, veja o que diz o Izaías Almada - http://www.rodrigovianna.com.br/vasto-mundo/almada-os-papagaios-estao-contra-chavez).

Na Bolívia, o quadro é parecido. Tanto que Evo Morales acaba de lançar um jornal estatal para se contrapor aos diários de oposição.

Na Argentina, o casal Kirchner enfrenta  o oligopólio do grupo Clarin. Mandou ao Congresso uma lei de Comunicação, que pode restringir o poder dos grandes grupos privados.

No Brasil.... Bem, no Brasil como sempre, o conflito não é aberto. Aqui, a tradição é comer pelas bordas. O que não significa que o conflito com os donos da mídia seja menor. No Brasil, a luta não é simplesmente entre Lula e a mídia,  mas sim entre os elos mais conservadores dessa mídia, e os setores populares: MST, quilombolas, defensores das quotas, sindicalistas, índios, ambientalistas. São, todos eles, criminalizados ou atacados pela mídia dominante.

Lula, de certa forma, é parceiro desses setores populares. Mas também se acerta com a elite. Mesmo assim, em 2005 a imprensa tentou derrubar Lula. PSDB e DEM vacilaram. Em 2006, ano da reeleição, a mídia partiu pra cima de Lula. O presidente ganhou.

Lula não trava o confronto aberto. Dá declarações críticas ("tenho azia com os jornais"), mas depois negocia. Cria a TV Brasil, leva para a Secretaria de Comunicação um desafeto das Organizações Globo (Franklin Martins), mas mantem Helio Costa nas Comunicações. Pulveriza as verbas publicitárias  - o que irrita os barões da mídia -, mas não bate de frente com ninguém.

Lula, depois de mutio vacilar, convocou a "Conferência de Comunicação". Fórum de debates, que pode escancarar  o absurdo de um setor em que poucas famílias controlam quase tudo o que passa pela TV, e em que as TVs e rádio regionais são comandadas pelos chefes políticos regionais. Oligarquia eletrônica. E é bom lembrar: os elos mais fracos dessa cadeia (a oligarquia eletrônica regional) tem lugar garantido na grande coalizão lulista.

A batalha da mídia é batalha pelas consciências. Já não é possivel saber se a luta começa na rua, e vai para as telas e páginas dos jornais. Ou se a luta começa nas telas e nas páginas e depois segue para as ruas.

É disso que trata o livro de Dênisde  Moraes.

A seguir, um trecho do prefácio assinado pelo autor.   

"O livro está dividido em duas partes. Na primeira, o leitor encontrará um ensaio sobre a construção da hegemonia no imaginário social, através dos jogos de consenso e dissenso que caracterizam e condicionam a produção de sentido nos meios de comunicação. Valorizo a contribuição de Gramsci a um entendimento ampliado do conceito de hegemonia. Segundo ele, a hegemonia não se reduz à coerção militar e à superioridade econômica, pois decorre também de batalhas permanentes pela conquista do consenso e da liderança cultural e político-ideológica de uma classe ou bloco de classes sobre as outras. Envolve a capacidade de um determinado bloco de articular um conjunto de fatores que pode levá-lo a dirigir moral e culturalmente, e de modo sustentado, a sociedade como um todo. Além de congregar as bases materiais econômicas, a hegemonia tem a ver com entrechoques de percepções e valores, no contexto concreto da luta de classes. Não é, portanto, uma construção monolítica, e sim o resultado das medições de forças entre blocos e classes, traduzindo formas variáveis de conservação ou reversão do domínio material e imaterial que atravessam o campo midiático, sendo por
ele influenciadas.


O ensaio seguinte trata de reverberações e impactos da cultura tecnológica em que estamos mergulhados. Tudo à volta se recompõe e se desloca incessantemente. Predominam os mantras da velocidade, da inovação e da mercantilização, cada vez mais ajustados à urgência por vantagens e dividendos competitivos. Como pretendo demonstrar, a multiplicação de produtos e serviços multimídias, disponibilizados por tecnologias de última
geração, põe-se a serviço de lógicas corporativas que convertem variedades em grandes quantidades lucrativas. Daí a importância de pressões sociais sistemáticas em favor de políticas públicas que protejam e promovam o interesse coletivo contra ambições monopólicas privadas.


Na segunda parte, consta o estudo sobre novas políticas de comunicação e difusão cultural de governos progressistas da América Latina, que realizei com o apoio da Fundação Ford. Dispus-me a investigar e explicitar mudanças em curso desde a ascensão recente de governantes eleitos com a bandeira da justiça social. A reação que se delineia em alguns países visa superar a histórica letargia do Estado diante da avassaladora concentração dos setores de informação e entretenimento nas mãos de um reduzido número de megagrupos nacionais e transnacionais, obcecados em rentabilizar a produção simbólica. O que se almeja agora, nos raios de influência estatal, é um conjunto de programas e ações que diversifique as fontes de emissão, altere leis
e marcos regulatórios, estimule meios alternativos e comunitários, apoie a geração e a divulgação de conteúdos regionais e locais e redirecione fomentos e patrocínios à produção audiovisual independente.

É relevante acentuar que em vários países tais providências decorrem de reivindicações de organismos e movimentos da sociedade civil, a partir do convencimento de que a informação veraz e o pluralismo são pressupostos indispensáveis à democratização da comunicação."

Comentários 2 Comentários | Comentar!

 

sidclei gondim comentou em 18/06/2009 às 15:57

Estou elaborando um projeto de pesquisa dissertativa sobre a ideologia no campo pragmático-semântico da mídia e esse livro seria uma ótima fonte de fundamentação teórica. Como faço para adquiri-lo? Favor se possível, envie resposta para sidsempre@hotmail.com

riovaldo comentou em 18/06/2009 às 14:40

EXCELENTE TEXTO RODRIGO.RETRATA MUITO BEM O QUE NÓS VIVEMOS NO PAÍS HOJE .ATUALMENTE 1 GRUPO DE MAIS OU MENOS 12 FAMÍLIAS QUE GANHOU FORÇA NA DITADURA CONTROLA QUASE TODOS OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO(A EXCEÇÃO É A RECORD QUE FOI REFUNDADA NOS ANOS 90 DEPOIS DE TER DEIXADO DE OPERAR DURANTE MUITO TEMPO)ESSE GRUPO FORMOU 1 PARTIDO POLÍTICO INFORMAL O P.I.G..GRAÇAS A DEUS O PIG VEM PERDENDO FORÇAS E VAI CONTINUAR PERDENDO COM O AVANÇO DA INTERNET.

Escrevinhador por Rodrigo Vianna