Ronaldo, Francisco e seu João
publicada segunda-feira, 09/03/2009 às 11:03 e atualizada sexta-feira, 28/05/2010 às 11:42
Não sei se o seu João ainda está vivo. Ele, de alguma forma, é o responsável pela foto que voce vê logo aqui abaixo: Francisco fez sua estréia em clássicos.
Com 4 meses, meu filho mais novo acompanhou a vitória do Corinthians (sim, esse empate entra pra história como uma vitória acachapante e incontestável) sobre o rival Palmeiras. Na sala de casa, estavam também – grudados na TV- os irmãos dele (André e Vicente – meus filhos mais velhos) e o patriarca Geraldo, meu pai.Além de minha mulher, Teresa, que ainda não é corinthiana – mas pode aderir a qualquer momento.
Francisco estreou com pé direito em clássicos; André e Vicente são da mesma linhagem
Quando Ronaldo meteu a testa na bola e partiu pra derrubar o alambrado aos 47 do segundo tempo, a sala de casa explodiu em gritos. Francisco já estava cochilando. E assim permaneceu. Não importa, pra mim ele testemunhou um dia histórico: o primeiro gol de Ronaldão com a camisa do Corinthians. André e Vicente se ajoelharam no chão. Meu pai pulou. Eu tremi, gritei.
No mundo inteiro, o gol virou notícia. Como aqui, em “La Gazetta dello Sport” http://video.gazzetta.it/?vxSiteId=f89d11d6-1424-420d-8ebb-23904200f68a&vxChannel=CalcioNews&vxClipId=2570_bce4ec4e-0c78-11de-987c-00144f02aabc&vxBitrate=300.
O que seu João tem a ver com isso? Bem, ele não sabe, mas é o responsável por uma linhagem de corinthianos que já chega à terceira geração. Deixa eu explicar.
Tudo começou no começo dos anos 50. Meu avô, mineiro, não ligava pra futebol. Tinha migrado pra São Paulo, e abrira uma pequena farmácia na rua da Móoca, zona leste da capital. A família morava nos fundos do estabelecimento.
Meu pai, com seus 7 ou 8 anos, gostava de ficar na farmácia, acompanhando o movimento. Havia dois funcionários no balcão: João e Flávio.
O segundo, palmeirense, tentou conquistar meu pai para as fileiras do Palestra. Mas, parece que não se empenhou muito. Palmeirense, às vezes, peca pela soberba. Azar deles.
João era diferente. Fanático, trazia a “Gazeta Esportiva” para a farmácia, contava histórias de jogadas incríveis, reconstituía as vitórias, justificava as derrotas. Assim, consquistou mais um corinthiano: o pequeno Geraldo virou torcedor do clube do Parque São Jorge. Verdade que o time da época ajudava João na tarefa: com Gilmar no gol, Luizinho, Baltazar e tantos outros craques.

O Corinthians de 1954: depois do título, vieram 22 anos de sofrimento
A conquista de 54 foi gloriosa: campeão paulista no ano do Quarto Centenário da fundação de São Paulo! Meu pai achou que vinha moleza pela frente, escolhera o time certo. Aí, começou o sofrimento…
Foram 22 anos sem títulos. Não importou. O Geraldo foi crescendo, arrastou o irmã Gerson (meu tio) também pra torcida alvi-negra. Depois, vieram os filhos do Geraldo (entre eles, este escrevinhador), os filhos do Gerson, os netos dos dois.
Francisco é o mais novo dessa lihagem alvi-negra. Mas, já vem por aí o Felipe – filho de meu primo Eduardo. Não há a menor chance de não ser corinthiano!
O sofrimento de meu pai durou até 77. Eu peguei uma parte só da longa fila. Lembro das tardes de sábado no Pacaembu dos anos 70. A gente gostava de ver os jogos na “curvinha” – um trecho da arquibancada de onde a visão diagonal permitia entender tudo o que se passava em campo. Foram várias frustrações: derrota pro Noroeste de Bauru, empate com o São Bento de Sorocaba.
Derrotas e frustrações ensinam muito. Como não tive educação religiosa, a fé na ressurreição corinthiana cumpria um pouco esse papel transcendental – imagino.
A redenção veio em 77, com aquele petardo de Basílio contra a Ponte Preta. Até hoje, sei de cor a jogada – desenhada por Gepp e Maia nas páginas do “Jornal da Tarde” ( pra quem não sabe, Gepp e Maia “desenhavam” os gols , fixando didaticamente no papel o desenrolar dos lances).
Depois, vieram os anos gloriosos com Sócrates, Casagrande, Vladimir e a deliciosa Democracia corinthana. Dois campeonatos em cima do São Paulo (com direito a gol no meio das pernas do Valdir Peres, coitado).

Sócrates e Casagrande: categoria em dobro; e o gol do talismã em 1990: raça e fé na vitória
E o título brasileiro com Neto em 1990? Eu estava atrás do gol quando Tupazinho deu aquele carrinho e faturamos o São Paulo, de novo, dentro do Morumbi.
Teve ainda o bi Brasileiro em 98/99, com Gamarra, Rincón, Marcelinho… E o Mundial em 2000.
Em 2005, o último título: o Brasileiro, com Tevez.

Glória em 2005 Fundo do poço em 2007
Depois, novo mergulho no breu. Eu estava fora do Brasil no dia em que o Corinthians foi rebaixado em 2007. André e Vicente choraram muito. Meu pai, mais uma vez, cumpriu o papel de renovar as esperanças. Levou os dois para um passeio na sede do Corinthians, mostrou o sala de troféus, comprou camisa nova do Timão. Ou seja: renovou a fé, no momento da queda.
Neste domingo, estávamos torcendo pela ressurreição de Ronaldo. E ela veio. Todomundo sabe que ele precisa mais do Corinthians do que o Corinthians precisa do Ronaldo. O Coringão é o time perfeito para alguém como ele, que já conheceu a glória, e foi ao fundo do poço.
Time que sabe bem o que são altos e baixos. Time que não morre na queda, que cresce na derrota. Esse é o espírito do Corinthians. Isso tudo traz alguma sabedoria.
Pra mim, tudo começou lá atrás, com o esforço de seu João, funcionário da farmácia da rua da Móoca. Sem ele, eu hoje não teria pulado tanto com aquele gol do Ronaldão. Gol de redenção. Gol com a marca do Corinthians.
Obrigado, seu João!
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