Lembranças da TV Cultura, antes do desmonte
publicada quarta-feira, 04/08/2010 às 13:13 e atualizada quinta-feira, 05/08/2010 às 16:00
São Paulo vai jogar no lixo a história da TV Cultura? Desmonte ameaça emissora
por Rodrigo Vianna
Aprendi a “fazer televisão” na TV Cultura de São Paulo. Trabalhei durante quase três anos lá, entre 92 e 95. Época de ouro. Presidida por Roberto Muylaert, e com Beth Carmona na direção de programação, a Fundação Padre Anchieta (mantenedora da TV Cultura) era um lugar delicioso para se trabalhar. Havia liberdade, incentivo à criatividade e à inovação.
Conto essa história porque me causa tristeza profunda ler a nota publicada por Daniel Castro, no R-7. Sob comando de João Sayad, os tucanos agora querem terminar o serviço na TV Cultura. Falam em demitir 1.400 pessoas. O último que sair apaga a luz.
Quando trabalhei lá, as luzes estavam sempre acesas! Havia estúdios modernos, bons equipamentos, salários mais do que razoáveis. Lembro que os câmeras e técnicos em geral tinham duas referências em São Paulo: Globo e Cultura. Eram as duas TVs que ofereciam melhor remuneração e melhores condições de trabalho.
Era a época do “Castelo Rá-Tim-Bum”, do “X-Tudo”, e do auge de programas como “Vitrine”, “Metrópolis”, “Grandes Momentos do Esporte” e tantos outros. Como jovem repórter (entrei na TV com 22 anos), eu integrava a equipe do “60 Minutos” – um telejornal que ia ao ar das 12h às 13h. Tempos heróicos. Com quatro ou cinco equipes de externa, a gente punha no ar todo dia 1 hora de jornalismo. Muito factual, muita entrada “ao vivo”. E uma equipe inesquecível.
Não vou citar nomes para não cometer injustiças, lembro apenas do Marco Nascimento (diretor de jornalismo sério e com talento pra formar equipes) e da Malice Capozoli (chefe de redação que comandava com segurança e carinho a produção do “60 Minutos”).
Ah, mas a audiência era baixa, dirão alguns. Não era! O “Castelo”, por exemplo, chegou a dar 15 pontos de média no começo da noite. Incomodava as novelas da Globo e ficava em segundo lugar. O “60 Minutos” conseguia 5 pontos de média. Era a segunda audiência em São Paulo na hora do almoço. O “Jornal da Cultura”, à noite, dava cerca de 4 pontos (mais ou menos o que consegue hoje o “Jornal da Band”).
Sabem quem era o governador naquela época? Fleury. Posso dar meu testemunho: nunca interferiu na programação, nunca fez lobby por esse ou aquele assunto. Cobríamos tudo, com liberdade. Quando o mandato dele terminou, Fleury deu uma entrevista no “Roda-Viva”. Eu estava entre os entrevistadores, e lembro de ele ter dito: “nem sei quem é o diretor de jornalismo da TV Cultura, nunca conversei com ele”. Achei aquilo sintomático. O Marco Nascimento (de quem sou amigo) nunca tinha ido ao palácio fazer “beija-mão” do governador. Era assim que as coisas funcionavam.
O Muylaert (que presidia a Fundação) tinha proximidade com FHC, virou até ministro dele no começo do primeiro governo. Durante a campanha presidencial de 94, nunca pediu nada ao jornalismo. Cobrimos Lula e FHC com total liberdade.
Em 95, Muylaert deixou a Fundação para ir ao ministério. E Covas assumiu o governo de São Paulo. Ali começou a operação desmonte. O tucano resolveu reduzir o repasse de verbas para a Cultura (eram 50 milhões de reais por ano). Covas cortou de forma linear em todas as áreas do governo, porque o Estado estava “quebrado”, como diziam os tucanos (e em parte tinham razão).
Mas Covas agiu como contador de secos e molhados. De fato, o Estado de São Paulo precisava passar por um ajuste. Mas os 50 milhões da Cultura eram irrisórios no Orçamento geral. “Não interessa, tem que cortar como todo mundo”: era o recado que vinha do Palácio.
As equipes foram reduzidas, desmontadas. E em TV, quando você desfaz uma equipe, vai cada um pra um canto. Difícil depois recuperar o estrago.
Saí da TV em junho de 95, num plano de demissão voluntária (PDV) feito para “enxugar” os quadros. Por sorte, recebi convite da Globo, no meio da “operação desmonte” que asfixiou a Cultura.
Nos últimos 15 anos, acompanho de longe a lenta agonia da TV. Aqui e ali, continuaram a surgir boas idéias, programas criativos, jovens talentos. Mas o movimento geral é de decadência – infelizmente.
Ainda há gente boa por lá – como o inesquecível “Monga” (outro grande chefe de redação que trabalhou a vida inteira na Cultura). Não sei se essa turma terá força pra resistir ao desmonte.
Tomara que os tucanos não tenham tempo de concluir a operação. Tomara que Sayad reveja essa posição. Se a turma do PSDB acha que a TV Cultura virou um “fardo”, podia negociar com a TV Brasil, para transformar a Cultura no braço paulista de uma mais do que necessária (e ainda incompleta) rede pública de TV no Brasil.
Santa ingenuidade a minha. Mas não consigo falar da TV Cultura sem falar com o coração. É triste o que estão fazendo com ela. E é mais um sinal do que pode acontecer no Brasil se essa turma que manda em São Paulo voltar a mandar no nosso país.
Daniel castro tentou ouvir Sayad – que é um homem razoável, não é um fundamentalista da privatização. Vejam…
“O blog tentou ouvir o presidente da Fundação Padre Anchieta, João Sayad, sobre as mudanças que ele pretende implantar na TV Cultura. Na última segunda-feira, por meio da assessoria de imprensa da emissora, pediu uma entrevista. Ontem à tarde, a TV Cultura informou que Sayad não falaria com o R7.
As informações aqui publicadas foram relatadas previamente à assessoria de imprensa da TV Cultura. Nada foi negado.”
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Volto eu: quem sabe o Sayad aparece e explica essa história, desmente, sei lá! Não quero acreditar que ele cumprirá esse papel!
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Nota
No início desta tarde, a TV Cultura divulgou uma nota sobre o assunto, entretanto nem nega nem afirma as informações divulgadas por Daniel Castro. Segue abaixo a nota, retirada do blog do Daniel Castro:
Em face às recentes notícias publicadas sobre a TV Cultura, informamos que:
A TV Cultura é patrimônio querido dos paulistas e brasileiros, com um acervo de ótimos programas e vários artistas e jornalistas de sucesso que começaram aqui, mas que precisa se renovar. Perdeu audiência, qualidade e se tornou cara e ineficiente.
Esta é a proposta de renovação que a Administração levará ao Conselho da Fundação Padre Anchieta: a revitalização dos programas admirados, a modernização dos processos administrativos, bem como dos equipamentos, e contando com os talentos que a emissora possui e com a contratação de novos apresentadores e jornalistas.
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23 Comentários




O provável desmonte da tv Cultura é um trailer do que Serra faria no governo federal.
triste mesmo.
pra quem trabalhou lá então..
esse zé entregão é pior que maluf quércia e fleury juntos.
e o xuxu opusdei.. vai pro ralo também.
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mercadante leva essa. podem crer.
dilma ganha de primeira.. com câmara e senado.
depois lula e dilma elegem todos e qualquer um em segundo turno.
será um arraso.
serra vai pro lixo da história.. e leva o opusdei medíocre junto.
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Um peso, duas medidas.
Como explicar que o governo de São Paulo repassa anualmente para a Osesp R$ 43 milhões – 58% da receita dela – e a mesma medida de corte não é anunciada?
vejam o balanço da Osesp: http://www.osesp.art.br/osesp/fundacao/pdf/balanco2009.pdf
Os demotucanos odeiam tudo o que é público: educação pública, saúde pública, transporte público, empresa pública, opinião pública, segurança pública. Enfim, detestam tudo o que o povo realmente precisa. O negócio deles é mesmo a privataria. Por isso nessas eleições esses senhores merecem ir mesmo para a privada. Fluss…
Sorte de vcs que ainda tem uma TV pública. Aqui em SC, no início de 2009, o (des)governador, num canetaço, simplesmente acabou com a transmissão em canal aberto da TV Cultura SC. Não temos retransmissoras da TV Cultura e TV Brasil em Florianópolis!
Estamos vivendo um momento em que está ficando explícito a forma de como o PSDB pensa e trabalha. Sempre fui contestada quando criticava a gestão tucana, espcialmente a do FHC. Agora saio por aí dzendo: eu não disse?
Mais um crime cometido pelos tucanos.
Até onde vai a desonestidade e o descaso deles. O povo paulista é muito individualista e cego.
Triste mesmo.
É a tucanalha agindo nas sombras como é do estilo deles, é URGENTE, digo URGENTE, retirar essa quadrilha do comando do Estado de São Paulo e não deixar que se instalem novamente no Governo Federal para não desmontar a estrutura democrática e popular criada pelo Governo Lula.
E, Viva o Povo Brasileiro!!!!!
Dilma 2010.
Caros Rodrigo e camaradas do blog:
O que sobrou em SP para estas pragas tucanas (piores que uma praga bíblica) venderem a preço de mer…? Sobrou muito pouco (e em péssimas condições):
1 – CESP (virou um vagalume nas mãos tucanas)
2 – SABESP (a maior agência de propaganda do mundo)
3 – CETESB
4 – Universidades Públicas (alguém duvida que vão passar na faca?)
5 – Educação Pública (semi-privatizada com as malditas apostilas)
6 – Saúde Pública (as Organizações $ociai$ agradecem a grana que mordem no orçamento)
Chega, SP já está destruído, não precisa ser vaporizado, para estes caras caírem fora
Luis, qt ao resto não posso opinar com propriedade, mas frequentando os bancos da USP desde o governo Covas posso dizer que as coisas por lá só fazem desmoronar. Perdeu o posto de melhor universidade da América Latina, inclusive. Tudo fruto dos cortes de verba progressivos, desvalorização dos professores, e investimentos mal planejados e eleitoreiros, como a USP Leste.
Caro Rodrigo Vianna, estes dias, eu estava comentando com amigos quantos ótimos jornalistas tinham nascidos (iniciados) na TV Cultura. Eu até palpitava na época que logo alguns iriam para a Globo, pois receberiam melhores propostas (Salários). Tipos de Você, Renata Ceribelli, Cezar Tralli, e incrível eu disse tambem que a Maria Julia Coutinho logo estaria na Globo… o que acabou acontecendo. Tomara que a TV Cultura resista à mudanças radicais. Grandes Momentos do Esporte, Roda Viva, Cartão Verde, Ra Tim Bum, Jornal da Cultura, etc, são ícones da programação da TV Brasileira. Dilma não deixára a Tv Cultura morrer…….
Mais uma ação do “nós podemos mais” desse psdb PODRE! acorda São Paulo!!!!!
Eu gostava muito do programa Vitrine…não perdia um! sem falar nos documentários, Planeta Terra, etc
A TV Cultura foi minha babá eletrônica. Assistia ao Bambalalão (no início, com palhaço Tic-tac, e depois foi crescendo, incorporando figuras inesquecíveis, como o Chiquinho Brandão, saudoso). Aprendia mil coisas com as experiências e as historinhas da Gigi! Talvez por ser um programa educativo (de verdade), eu terminava achando as apresentadoras infantis da época (Xuxa, Mara, e coisas do mesmo naipe) uma chatice. Só curtia os desenhos. Adorava mesmo Bambalalão e a turma do Daniel Azulay (da Band, eu acho). Mais tarde não perdia um Revistinha, tb da Cultura. Era super bacana! Nossa, faz tanto tempo… é uma pena que hoje não existam – pelo menos na TV aberta – programas do gênero. Ah, eu tô ficando velha!!!
Assistia Castelo e Mundo da Lua com minha filha pequena. Assistia o Jornal da Cultura com a Valéria Grillo, vitrine, metrópolis, um programa de dança e muito mais. Minha filha cresceu, os tucanos chegaram, a programação foi ficando cada vez menos interessante, parei de ver televisão, sempre torcendo para que a TV Cultura recuperasse qualidade.
Agora estes imbecis que estrangularam a minha televisão reclamam por ela estar roxa. Safados.
É triste, viu…
Tá certo o Serra. Todo castigo pra paulista que vota em tucano É POUCO!!
Sem cinismo, mas será um desafio piorar a TV Cultura. Se hoje ela se arrasta em sua oceânica mediocridade, o que é que vão fazer dela? Talvez fosse melhor vender tudo e transformar aquilo num presídio – pelo menos, seria mais sincero. Cordialmente,Marcius Cortez
Triste o fim da Cultura. Nasci em São Paulo, lembro da minha mãe colocando na Cultura para eu ver Bambalalão (eu sou do tempo do Tic Tac também). Assistia a parte da programação infantil dela porque a antiga TVE (do Rio) reproduzia boa parte dos programas infantis.
Aliás, o sucateamento é um grande motivo para eu não votar no Serra.
Já faz tempo esse artigo, mas hoje vejo, hoje comento: lembro dessa época da Cultura tb com saudades. Assistia lá no sul do Ceará, via parabólica. Gostava muito do metrópolis, do roda viva e das Amostras Internacionais de Cinema, com o careca Karkof, acho. Acho tb que por essa época ouvi que a globo andava criticando a Fundação Pe. Anchieta, que tinha lucros etc. Já cercava. Não sei se é verdade.
Mais novo, via o castelo rá-tin-bum, com meus irmãos. Gostava do Musicaos e, domingo de manhã, música no parque Ibirapuera, acho. E à tarde, se n me engano, uns documentários bacanas sobre arte. Hoje a TVBrasil substituiu a Cultura. Quase não vejo, a não ser o roda viva (ainda chateado, pq desde Markun os jornalistas são da msm turma, mandei mil emails), mas vejo na tvbrasil.
Qto ao sonho do tucanato permitir a incorporação da TVCultura…quimera: o tanto que criticam a própria tvbrasil…o jeito é acabar com o tucanato nas urnas.
Onde o Sayaad está sempre tem merda
O desmonte já começou oficialmente nesta terça-feira 06/12/2011.
É triste mas é verdade, cortes absurdos foram feitos sem qualquer critério. É a farra com o dinheiro público e ao mesmo tempo a justificativa é a falta dele. É lamentável…
Tenho 16 anos e via,quando criança,as reprises de “Mundo da Lua” e do “Castelo” e do “Rá-Tim-Bum” que tinha o Marcelo Tas no papel do professor.Havia o urso branco Rupert,aqueles ursos marrons,muito legal.Sinto muita saudade,a TV Cultura era e é a nossa “TV Educativa” à la Canadá,ao lado do FUTURA.E há ainda o “Cyberchase” e “Os Camundongos Aventureiros”.
Abraços.
Até logo.